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Entrevista com o repórter fotográfico Albari Rosa

sexta-feira, maio 31st, 2013

Da série 51 entrevistas com fotógrafos.

Albari Rosa é um dos melhores repórteres fotográficos do Brasil. Cobriu duas Copas do Mundo (2006 e 2010) e a Copa América de 1999. Foi diplomado em 2012 como Jornalista Amigo da Criança,  pela ANDI – Agencia de Noticias dos Direitos da Infância. Somente 376 jornalistas no Brasil tem este titulo e na fotografia são apenas seis e o Albari faz parte deste seleto grupo. “Tenho muito orgulho deste título”, afirma. Acompanhe abaixo um pouco do trabalho deste mestre das imagens.

Albari Rosa no estádio Nelson Mandela Bay em Porto Elizabeth, no jogo entre Brasil e Holanda válido pelas quartas de final da Copa do Mundo da Africa 2010.

Quem é Albari Rosa?

Em 1988 iniciei minha carreira de fotojornalista como freelancer para as revistas da Editora Abril (Revista Veja, Veja Paraná, Revista Placar e Exame) e para os jornais do eixo Rio/São Paulo, além do Diário Lance. Tive uma passagem pela assessoria de imprensa da prefeitura municipal de Curitiba. Em 1996, passei pela equipe do Jornal Folha de Londrina, onde cheguei ao cargo de editor de fotografia. Atualmente, sou repórter fotográfico do Jornal Gazeta do Povo.

Como começou no fotojornalismo?

Tenho orgulho de afirmar que comecei na Editora Abril em 1986, quando fui contratado como motorista da sucursal da Revista Veja em Curitiba e tive a sorte de conhecer e aprender muito com Nani Góis, o melhor repórter fotográfico do Brasil (atualmente ainda tenho esta opinião). Desde o inicio, encarei a minha função de motorista como provisória. Sempre tive vontade de evoluir profissionalmente. O Nani reconheceu meu interesse no fotojornalismo. Incentivou-me a comprar uma câmera, porque ele me daria aulas, enquanto eu o acompanhava e o ajudava nas produções das pautas da Revista Veja. Deste modo, comecei a fotografar as mesmas pautas que ele fazia e todos os dias aprendia um pouco.

Senador Roberto Requião. Foto: Albari Rosa

Lembra qual foi sua primeira capa na Gazeta do Povo? Como a conseguiu?

Não me lembro da primeira capa da Gazeta do Povo, mas lembro da minha primeira foto publicada que recebi um pagamento por ela. Foi uma foto feita para a Revista Veja Paraná, do Risotão do Xaxim. Era um jantar dançante. A matéria era sobre locais que eram tradicionais da gastronomia, mas desconhecidos para as pessoas do centro e de outros bairros. O repórter era o atual famoso blogueiro do Paraná Zé Beto. Como ele sabia que eu estava iniciando na profissão resolveu me dar uma chance. Além disso, Zé Beto sabia que eu conhecia o bairro, pois morei a vida inteira lá.

Futebol. Foto: Albari Rosa

O que você aprendeu sobre si mesmo sendo um repórter fotográfico?

Ser uma pessoa mais consciente da importância para mim e para a sociedade do meu trabalho. Sou um autodidata e mesmo não tendo passado por uma academia (acho importante uma faculdade), sempre tive ética como ponto fundamental no resultado de todos os trabalhos que já fiz até hoje.

Brasil e França em 2006 na Copa do Mundo da Alemanha. Foto: Albari Rosa

O que o leva a fazer imagens? Você vê isso como um trabalho ou como uma vocação?

Ser repórter-fotográfico. Trabalhar em um jornal diário é uma prova em cada foto. Num mesmo dia circulamos por lugares e situações que em outras profissões é impossível. Os assuntos são os mais variados: alegres, tristes, emocionante, chocantes e, em muitas vezes, perigosos. Com uma rotina dessas, a profissão de fotojornalista é muito mais que um trabalho e sim uma vocação.

Brasil eliminado pela Holando na Copa do Mundo da África do Sul. Foto: Albari Rosa

Em toda profissão há obstáculos, você enfrentou muitos? Quais?

Concordo que existam obstáculos, mas tenho certeza de que são eles que separam os profissionais dos amadores e dos aventureiros de plantão. Quem tem olhar fotográfico voltado para a informação sempre vai achar a melhor maneira de registrar a imagem. Nossa profissão exige que você prove todos os dias ser capaz de fazer bem feito. O bom fotojornalista é aquele que tem boas fotos todos os dias para as reportagens pautadas. A dinâmica de um jornal diário não permite refazer trabalhos e as pautas de coberturas factuais (protestos, jogos de futebol, greves entre tantas outras) é praticamente impossível (errar, refazer?).

Goleiro Julio Cesar falha e Holanda faz o primeiro gol que ajudou a eliminar o Brasil da Copa do Mundo da África. Foto: Albari Rosa

O que você procura dizer com a sua fotografia?

Procuro provocar nas pessoas uma reflexão mais profunda sobre assuntos do cotidiano que retrato. Fotojornalismo tem obrigação de trazer a público a realidade dos assuntos mesmo que a imagem remeta a dor, fome, indignação ou que choque e cause comoção. Em assuntos positivos a leitura tem que ser da mesma forma retratando explosão de alegria e emoção.

Fico feliz quando consigo captar e transmitir nas minhas fotos as mesmas sensações que senti quando estava fotografando.

Reportagem especial sobre os resultados positivos e negativos que a Copa do Mundo da África deixou para os sulafricanos, depois de um ano. Na foto cenas do cotidiano da população no bairro Soweto em Johannesburgo. Foto: Albari Rosa

Tem algum projeto documental ou autoral no momento? Qual?

Desde 1988, quando comecei no fotojornalismo, tenho absoluta certeza de que meu trabalho é documental porque meu compromisso é com a realidade e já esta pronto. Venho retratando cidades e pessoas e costumes por onde passo. Meu outro projeto no momento está ligado à fotografia sim, mas não é autoral nem documental e sim o de ensinar fotografia de maneira simples eficiente.

Crianças conhecidas como “Piratas do rio” enroscam suas canoas no barco em movimento para vender produtos da região para os passageiros, no rio Amazonas de Manaus-AM a Belém-PA. Foto: Albari Rosa

Qual é o seu processo para ganhar a confiança das pessoas que vai fotografar?

Procuro explicar para os personagens que costumo retratar nas reportagens que boas matérias são acompanhadas de boas fotografias e a importância da imagem carregar uma composição que transmita em primeiro lugar a informação que o texto que será publicado e que antes de se ter uma foto bonita o fundamental ter uma imagem com o poder da síntese.

Comércio antes do amistoso entre Brasil e Zimbábue, em 2010. Foto: Albari Rosa

Qual é o fator mais importante em fazer uma boa foto?

Para mim, que trabalho com jornalismo, é imprescindível que a imagem tenha informação clara e objetiva (poder de síntese). O profissional tem que ser perspicaz e ter uma visão periférica desenvolvida. Outra questão muito importante também é ter pleno domínio técnico da fotografia e do equipamento que esta manuseando.

Veranista na praia de Caieiras em Guaratuba. Foto: Albari Rosa

O que significa para você fotografia de reportagem e o papel dela para a justiça social?

A foto-reportagem tem o poder de denunciar e promover discussões sobre assuntos que muitas vezes ficam à margem da sociedade. Quando você consegue “escrachar” falcatruas, irregularidades, injustiças, desmandos, é como se você desse um soco no estomago da sociedade e provocando discussões e cobranças nas pessoas que trabalham no enfrentamento das questões sociais. Depois, ver isso ser corrigido é fantástico.

Passarinhos fazem ninho em Johannesburgo, na África do Sul. Foto: Albari Rosa

Com toda sua experiência, acredita que uma imagem pode transformar uma realidade? Já viveu alguma experiência assim? Como foi?

Sempre acreditei no poder da imagem. Tenho uma experiência profissional que comprova e sempre me da força para continuar acreditando nisso.

Em 2004, o repórter Mauri König e eu, fizemos uma reportagem com uma família que morava às margens de uma estrada no sudoeste do Paraná, município de Mangueirinha. Esta matéria contava a vida de uma das centenas de milhares de famílias que vivem abaixo da linha da miséria no Brasil. A matéria recebeu o titulo “Devorados pela Miséria” e a foto principal era dos pés do menino Luiz Gabriel, cheio de feridas provocadas por bichos de pés. A reportagem provocou imediata indignação das instituições governamentais e não-governamentais. De imediato o menino foi levado para um hospital para ser tratado, o restante da família recebeu ajuda e doações surgiram de todos os lugares e pessoas.

Passado cinco anos voltamos na região para encontrar a família, e claro que os encontramos vivendo numa casa de alvenaria, doada pelos comerciantes e empresários da cidade, em um bairro na periferia. O Gabriel veio correndo em nosso encontro e logo nos contou que tinha acabado de ganhar uma medalha no campeonato de futebol da escola. Luiz Gabriel estava ameaçado de ficar aleijado, porque sem os dedos qualquer pessoa fica impossibilitada de ficar em pé por falta de equilíbrio. Leia matéria publicada na Gazeta do Povo.

Clique aqui para ver as imagens e a matéria sobre Luiz Gabriel.

Desocupação em área onde os sem-teto reivindicavam e fizeram barricadas para dificultar a ação da PM. Foto: Albari Rosa

Você acha que é necessário repensar o papel do repórter fotográfico no cenário das comunicações virtuais e do avanço tecnológico?

O papel não! Acho que os veículos de comunicação e os profissionais é que tem que rever alguns conceitos fotográficos. Com os avanços tecnológicos nos equipamentos e nos softwarers fotógrafos empresas tem que ter bem definidos qual a finalidade do pós-foto, tratamentos e manipulações. A fotografia sempre gozou de um conceito de muita credibilidade e temos a obrigação de zelar isso tomando muito cuidado para não deixar o conceito mudar. O papo sempre foi “se tem foto aconteceu”.

Foto: Albari Rosa

Numa reportagem, como a Polícia Fora da Lei, qual o apoio que o jornal oferece para os profissionais envolvidos?

Recebemos nesta matéria e em outras reportagens investigativas todo o apoio do jornal, durante a produção da reportagem e depois de publicada também.

Foto: Albari Rosa

Houve alguma perseguição contra algum dos jornalistas envolvidos?

Sim! E o jornal tomou todas as providencias necessárias não só com os jornalistas mas também com familiares, além de denunciar para os órgãos responsáveis e cobrar providencias do governo.

Estação tubo do Xaxim, na Linha Verde em Curitiba. Foto: Albari Rosa

Esta foi a experiência mais intensa de sua carreira ou teve alguma outra?

Foi com certeza a mais difícil e tensa de todos os trabalhos que já realizei, mas também foi muito gratificante profissionalmente. Montamos uma equipe de verdadeiros repórteres.

Ponto turístico Water Front em Cidade do Cabo, na África do Sul. Foto: Albari Rosa

O fotojornalismo pode justificar o risco de sua própria vida?

Claro que não. Assunto nenhum pode ser mais importante que a vida.

No fotojornalismo foto boa é a foto que você consegue trazer para o jornal para ser publicada.

Por do sol visto da Table Mountain na Cidade do Cabo, na África do Sul. Foto: Albari Rosa

Uma única foto realmente pode expressar mil palavras?

Esta frase é muito repetida por fotógrafos no mundo todo, mas eu discordo e vou tentar explicar. Por mais fantástica que seja a foto e por maior que seja o poder de síntese que ela tenha, a pessoa que vê, num primeiro momento ela analisa a informação, composição, enquadramento, luz e cores e, logo em seguida, quer saber mais sobre aquela imagem. Todos nós sentimos a necessidade de saber onde foi feita, quando foi feita, porquê foi feita e quem esta na foto. Por isso defendo o modelo usado nos jornais que é o poder da síntese da imagem com o poder da analise do texto ou no mínimo uma boa legenda.

Ana Daniele Boiko, agricultora de Campo Mourão, na lavoura de milho. Foto: Albari Rosa

Chaminés da indústria Berneck em Araucária, região metropolitana de Curitiba. Foto: Albari Rosa

Foto: Albari Rosa

 Leia outras conversas em: 51 entrevistas com fotógrafos.

Comments (6)

  1. Antonio Costa
    junho 1st, 2013

    Sábias palavras do grande profissional Albari Rosa.Parabéns pela reportagem,Joka Madruga.

  2. Joka Madruga
    junho 1st, 2013

    Valeu Antonio, o projeto é nosso. 😀

  3. Rogério Fischer
    junho 4th, 2013

    Albaro Risa, ou melhor, Albari Rosa é um craque. E olha que eu nem o vi jogar.

  4. ADEMIR ALVES
    junho 4th, 2013

    E MOTIVO DE ORGULHO, UM PARANAENSE COM DESTAQUE NACIONAL, PREMIADISSIMO, E MUITO COMPETENTE. PARABENS ALBARI ROSA.

  5. Jonas Oliveira
    junho 4th, 2013

    Esse é o Albari Rosaaa

  6. Ronaldo
    junho 5th, 2013

    Este cara é the best. Grande parça.

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