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Entrevista com o repórter fotográfico Antonio Costa

terça-feira, março 12th, 2013

Da série 51 entrevistas com fotógrafos.

Esta semana a conversa é com Antônio Costa, o Socozinho, que trabalhou muito tempo na Gazeta do Povo e hoje curte uma merecida aposentadoria, mas sempre com a câmera nas mãos. Confira:

Antonio Costa por Henry Milléo

Quem é Antônio Costa?

Uma pessoa disposta a repassar o que aprende na profissão para quem tem interesse e paixão pela mesma coisa que faço: a fotografia.

Como foi trabalhar na Gazeta do Povo por tantos anos?

Foi uma experiência incrível. Sou muito grato ao saudoso Dr. Francisco Cunha Pereira Filho e sua filha Ana Amélia pela oportunidade e confiança em meu trabalho.

Ação integrada das policias civil, militar e guarda municipal na prevencao ao crime na cidade de Foz do Iguaçu. Foto: Antonio Costa

Você tinha liberdade na produção de suas imagens?

Sempre tive liberdade na produção das fotos. O problema era o excesso de “editores de imagem” que tinha lá dentro. Muita gente que nunca pegou numa câmera, mas que passava por cima até dos próprios editores de fotografia que o jornal tem. O resultado era sua produção jogada no lixo, ou mutilada apenas para satisfazer um gosto pessoal deste ou daquele editor.

Faz pouco mais de um século que pela primeira vez se usou uma foto para ilustrar uma reportagem. Ainda hoje os repórteres fotográficos são insubstituíveis para a qualidade e as informações fornecidas através do seu conteúdo visual?

São insubstituíveis sim. Acredito muito nisso e o leitor não é idiota como julgam nas redações.

TANGARA DA SERRA – Colheita de soja na fazenda do grupo Andre Maggi . Foto – Antonio Costa

Na sua carreira fotografaste esportes, cotidiano, policial, cultura, etc. Quem ou o que mais causou impacto no seu modo de fotografar?

Se eu listar quem causa impacto no meu modo de fotografar, vai ficar parecendo final de filme longa-metragem (risos). A lista vai desde os nomes renomados da Magnum e da National Geographic, passando pelos nossos brazucas e os velhos e novos que trabalham em nosso estado. Busco sempre inspiração em todos, mas principalmente de colegas de clique daqui do Paraná.

Recentemente aconteceu uma polêmica no concurso World Press Photo sobre manipulação de imagem. Mesmo sabendo que esta prática existe desde os primórdios da fotografia, como você analisa esta situação?

É até engraçado. Quando você inscreve um trabalho, no regulamento está escrito nos principais idiomas que não serão aceitas fotos com excesso de tratamento digital e que o júri prima pela qualidade técnica do trabalho. Não sou contra o tratamento digital. Mas é como cerveja, aprecie com moderação.

TANGARA DA SERRA – Colheita de soja na fazenda do grupo Andre Maggi . Foto – Antonio Costa

Qual história, no exercício da profissão, marcou sua vida?

Em 2011 passei quase uma semana no Haiti, para fotografar os trabalhos das tropas brasileiras e a reconstrução do país um ano após o terremoto que afetou principalmente sua capital Porto Príncipe. Ver aquela gente morando em barracas doadas, esgoto a céu aberto, surtos de cólera e malária me entristeceu, até hoje penso neles.

Sempre vejo, em teu Facebook, as diversas dicas que dá para jovens fotógrafos. Não pensa em dar aulas de fotografia?

Eu gosto de falar de fotografia e muitas vezes acabo prolongando o papo. Já me fizeram esta pergunta diversas vezes, mas eu não tenho esta pretensão. Um bate-papo ou um encontro sobre fotografia eu aceito. Dar aula não.

TANGARA DA SERRA – Colheita de soja na fazenda do grupo Andre Maggi . Foto – Antonio Costa

Como deve ser a relação do fotojornalista com o repórter numa pauta?

Deve ser uma sintonia fina. Um depende do outro. O problema é que muitas, mas muitas vezes mesmo, o repórter acha que o fotógrafo é seu serviçal. Esquecem que a grande maioria tem curso superior e até conhece outro idioma. Mas eles preferem aquela imagem de que fotógrafo é ignorante. Acham que a gente apenas aperta botão, uma pena.

Das diferentes pautas que você cobria diariamente qual a mais difícil? Esportes, policia, cultura ou alguma outra? Porquê?

Não tem pauta difícil. Tem pauta chata, aquela que no esporte, principalmente o futebol, o clube fecha as portas para a imprensa. Polícia, quer sempre dar a versão dela. Cultura, aquele ator global que precisa da imprensa para divulgar seu trabalho, mas quase sempre esquece disso, fazendo você ficar plantado horas em coletivas, ou aquele diretor teatral ou músico que dá chilique quando vê fotógrafo. E olha que aqui não temos o hábito de paparazzi.

TANGARA DA SERRA – Estrada rural para o transporte da colheita de soja na fazenda do grupo Andre Maggi . Foto – Antonio Costa

O que é para ti o “olhar”?

Sem ele, não tem foto (risos).

Recentemente os seguranças do Operário de Ponta Grossa-PR exigiram que alguns repórteres fotográficos deletassem as imagens que fizeram de uma briga de dois jogadores num treino. Você já viveu alguma situação semelhante, seja com segurança particular, cidadão comum ou mesmo a polícia? Como reagiu?

Já passei por algumas situações assim. Nunca deletei imagens, ficamos no empurra-empurra, mas não apaguei. Na reitoria da UFPR certa vez, um grupo de estudantes veteranos aplicando trote nos calouros de história, quiseram que eu entregasse o cartão. Chamaram um vigilante e fomos parar na sala da vice-reitoria, que disse aos alunos que eles não tinham o direito de exigir que eu apagasse as fotos, uma vez que a instituição havia autorizado nossa entrada. Na sala da vice-reitoria eram uns anjinhos, diferentes dos truculentos que me cercaram no pátio. Disse a eles que era engraçado que em passeatas, quando a polícia bate neles, gritam palavras de ordem como “Abaixo a repressão” e faziam questão que a imprensa registrasse a ação da polícia. Mas quando eles agrediam os calouros com trotes estúpidos, aí não havia problema.

Um ano depois do terromoto que destruiu parcialmente a capital do Haiti,o povo tenta reconstruir a cidade que ja sofria com a falta de infraestrutura e saneamento basico. Foto-Antonio Costa

Quais as ações que um repórter fotográfico deve fazer para “tirar leite de pedra” numa pauta ruim?

Toda pauta, por mais imbecil que pareça deve ser encarada como “capa”. Um ou dois flashes fora da câmera já faz a diferença. Karime Xavier, fotógrafa que começou aqui em Curitiba e hoje brilha na Folha é um grande exemplo disso.

Vemos todo dia nos grandes portais de notícias imagens sem qualidade. A maioria dos ditos “leitores repórteres”. O que me diz sobre isto?

Eu não sou contra porque é legal essa interação leitor-jornal. O problema é que os jornais se aproveitam da boa vontade do leitor e usam seu material sem pagar nada por isso. Não pagando nada, não pode cobrar qualidade e em algumas vezes, ética.

Um ano depois do terromoto que destruiu parcialmente a capital do Haiti, o povo tenta reconstruir a cidade que ja sofria com a falta de infraestrutura e saneamento básico. Foto-Antonio Costa

Com toda sua experiência, acredita que uma imagem pode transformar uma realidade?

Acredito. Albari Rosa em matéria vencedora do Prêmio Esso Regional, intitulada “Devorados pela miséria”, é um grande exemplo disso. Albari não ganhou o prêmio pela fotografia. Mas o maior prêmio foi para os retratados. A foto sensibilizou muita gente que se dispuseram a ajudar os pais e o menino que o Albari fotografou o pé dele cheio de bicho de pé.

Com a rapidez da internet e pressão dos editores para ter uma imagem o mais rápido possível, a qualidade da foto já não importa mais? Por quê?

Concorrência. Preocupação de chegar com a informação o quanto antes, mesmo que para isso a foto seja a sacrificada. Estão querendo substituir fotojornalistas por “fotoilustradores”.

Um ano depois do terromoto que destruiu parcialmente a capital do Haiti, o povo tenta reconstruir a cidade que ja sofria com a falta de infraestrutura e saneamento básico. Foto-Antonio Costa

Os repórteres fotográficos tem a fama de serem bons por fotografarem com uma luz diferente a cada momento, diferente de um estúdio onde se programa a luz como quer. Qual a dica para se dar bem com uma iluminação desfavorável?

Não tenha medo do (ou dos) flashes fora da câmera. Esqueça a velha burrice de que foto com flash fica ruim, que é preferível luz natural. Quem diz isso não sabe trabalhar com flash. Saia do ETTL, ou TTL. Regule a potência e terá a luz controlada.

Você acredita na objetividade do fotojornalismo?

Sempre acredito. Quem não acredita são os editores e os “artistas gráficos” que hoje está na moda nas redações…

Um ano depois do terromoto que destruiu parcialmente a capital do Haiti, o povo tenta reconstruir a cidade que ja sofria com a falta de infraestrutura e saneamento básico. Foto-Antonio Costa

Já deixou de fazer alguma foto por ter se comovido com alguma situação?

Poucas vezes isso aconteceu. Em acidentes com vítimas fatais evitava enquadrar familiares em desespero.

Quais os planos daqui para frente?

Fotografar, fotografar, fotografar. Buscar sempre novidades e conhecimento.

Baia de Paranagua. Foto – Antonio Costa

Acao integrada das policias civil , militar e guarda municipal na prevencao ao crime na cidade de Foz do Iguaçu. Foto – Antonio Costa

Leia outras conversas em: 51 entrevistas com fotógrafos.

Comments (2)

  1. Antonio Costa
    março 12th, 2013

    Grande Jokinha.Bela iniciativa esta de conversar com a galera do clique regional.Parabéns.

  2. Edilson de Freitas
    março 12th, 2013

    Este sim é um profissional completo.
    Uma simplicidade em pessoa, sempre gostou de compartilhar o conhecimento adquirido.
    É o cara!
    Saudades Socó!

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