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Entrevista com o repórter fotográfico Henry Milléo

terça-feira, fevereiro 19th, 2013

Da série 51 entrevistas com fotógrafos.

O entrevistado desta semana é o premiado repórter fotográfico Henry Milléo. Ele fala de fotojornalismo na atualidade e sobre concursos fotográficos, além de dar valiosa dica sobre como participar. Confira:

Foto: Daniel Castellano

1. Quem é Henry Milléo?

Só um cara que vê o mundo através de um retângulo.

2. Como começou a sua inclinação para o fotojornalismo?

Eu sempre gostei muito de jornais e revistas, gosto de ler, leio tudo o que posso e quando descobri que o jornalismo existia como uma profissão, fiquei empolgado. Gostava de fotografia também, consumia muito, em revistas e jornais, mas naquele momento, por volta dos meus 12 ou 13 anos, meu foco era o texto. Foi na faculdade que percebi que a redação para jornal diário não era muito minha praia, porque não tinha estrutura para manter um ritmo de escrita que me agradasse sem perdas, eu tinha certeza que o jornalismo diário iria acabar ‘matando’ meu texto. Foi aí que eu voltei os olhos com um maior cuidado para o fotojornalismo. Eu já fotografava para jornal, mas era mais um trabalho autoral, mais lúdico do que fotojornalismo, mas foi aí que percebi que poderia fazer uma coisa que eu gosto e com um resultado que me agradasse.

Sem-terra corre em plantação de milho transgênico queimada na área da Monsanto, em Ponta Grossa / 2003. Foto: Henry Milléo

3. Quais as suas impressões sobre o atual cenário do fotojornalismo no Brasil?

Eu gosto de como o fotojornalismo vem se desenhando no país. Nós temos uma nova geração de profissionais que se preocupa mais com a estética da imagem, que se informa mais e que tem o que dizer além da câmera. São fotojornalistas que testam ou testaram outras vertentes da fotografia e trouxeram técnicas diferentes para o fotojornalismo.

4. É possível fazer fotojornalismo com arte?

Creio que sim, ou ao menos acredito que vale a pena a tentativa. O básico no fotojornalismo é a informação, porque o leitor tem o direito de ser informado.  Mas aí, dentro desse conceito de informar, você pode descobrir formas e formas de fazê-lo. A meu ver, uma estética mais apurada, uma outra forma de trazer essa informação, de tal maneira que deixe a imagem interessante e de fácil entendimento, só contribui para atrair o leitor. Mas eu também não sei se existe isso de “fazer uma foto artística”; eu acredito que uma fotografia possa vir a ser um objeto artístico, mas confesso que nunca entendi muito o conceito de criar uma foto artística.

Crianças dormem em acampamento do MST na Fazenda Palmira, município de Reserva / 2003. Foto: Henry Milléo

5. O que é ser repórter fotográfico?

É não ter muitos finais de semana, nem horário fixo. É uma forma de estar “viciado em curiosidade”, querer sempre saber, lamentar não estar em um determinado lugar ou alguma ocasião específica onde a maioria das pessoas pagaria para não ir…. enfim, é um negócio maravilhoso (risos).

Garotos passam por baixo de vagões de trem no bairro Uberaba para poderem ir para a escola / 2012. Foto: Henry Milléo

6. Qual sua melhor história durante uma pauta?

Putz! Não sei se tenho alguma melhor ou mesmo uma boa história (ao menos agora que tu perguntou, eu não me lembro). Mas lembro de uma curiosa, quando fui até Guarapuava com a pauta de cobrir o deputado Fernando Ribas Carli Filho, que estava de volta à cidade natal depois do acidente em que ele se envolveu.

A pauta era tentar flagrá-lo lá na cidade. Então eu fui, com a repórter e o motorista, e acampei por dois dias dentro de um carro descaracterizado esperando que o Carli saísse de casa. Como eu não podia correr o risco de perder esse momento, eu fazia as refeições ali no carro mesmo e urinava em garrafas descartáveis, pois o banheiro mais próximo era de um posto de gasolina a duas quadras de distância. Mas no fim valeu a pena, fiz as primeiras imagens do ex-deputado depois do acidente.

Descarrilamento e incêndio em trem dentro de área indígena no município de Ortigueira / 2004. Foto: Henry Milléo

7. Qual sua foto favorita? Por quê?

Essa é uma pergunta que eu realmente não sei responder.

8. O que você gostaria de inventar para facilitar seu trabalho?

Um notebook à prova d’água (se é que já não existe).

Estudante apanha de guarda municipal de Ponta Grossa, durante protesto contra aumento da tarifa de transporte / 2006. Foto: Henry Milléo

9. Você acha que a técnica atrapalha um pouco a sensibilidade?

Não. Acho que as duas têm que trabalhar juntas. Só acho que é mais fácil aprender a técnica do que educar a sensibilidade.

10. Qual o primeiro passo para ser um bom repórter fotográfico?

Dedicação e entendimento de que o trabalho não é um simples emprego, e sim uma vocação. Escolher ser repórter fotográfico porque gosta da coisa. Se não for por isso, não dá certo, porque existe muita coisa a arriscar, muito tempo a dispensar e um preço que às vezes pode ser alto.

Quero-quero “ataca” calcanhar de jogador de jogador durante disputa da liga amadora em Ponta Grossa / 2007. Foto: Henry Milléo

11. Se especializar em uma modalidade ou fotografar um pouco de tudo?

Eu sou da teoria que o cara tem que fazer o que gosta. Se for fotojornalismo, será fotojornalismo; se for fotografia social, será social; se for fotografia esportiva, será esportiva, e assim por diante. Só que para saber o que quer você tem que experimentar, até porque esse exercício é válido; nada do que você aprende é perdido e você pode acabar usando técnicas comuns em outras vertentes da fotografia para aliar ao que você quer fazer. Então, se você gosta de fotografia, mas se para você ela só tem significado em uma única área, se especializa, senão, faz um pouco de tudo.

12. Qual o melhor momento de sua carreira?

Espero que ainda esteja por vir.

Soldado do exército vigia Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, na véspera da visita da presidente Dilma Roussef / 2011. Foto: Henry Milléo

13. Quais os prêmios que já conquistou com seus trabalhos fotográficos?

Em concursos eu já fui premiado no SOS Mata Atlântica, no International Library of Photography e o Grande Prêmio New Holland de Fotojornalismo Agrícola, no ano passado.

14. Conte-nos como você produziu a imagem vencedora da oitava edição do Prêmio New Holland.

Eu estava indo para Palmas, no sul do Paraná, para uma pauta sobre algo que não me lembro agora (risos). Acontece que para chegar na cidade você passa pelo campo de cataventos da Usina Eólica e – é claro – toda a vez que passo por lá eu tenho que parar para fotografar a paisagem com as hélices gigantes (todo fotógrafo para). O legal lá é que o campo não ficou inutilizável por causa da instalação da usina, ele é aproveitado como pasto para o gado. Era um dia meio frio, tinha um vento um pouco gelado e eu subi em um barranco do lado contrário da estrada e com a 70-200mm enquadrei os três cataventos e fiz algumas composições com eles, aproveitando o céu, que estava um pouco carregado e dava um contraste bonito. Aí eu percebi que uma vaca vinha caminhando em direção àquelas hélices que estavam no meu quadro e fiquei ali, esperando ela entrar na cena, e quando ela chegou eu disparei. Fiz três fotos dela e continuei meu rumo.

Vaca pasta em área de usina eólica em Palmas. Esta foi a imagem vencedora do Prêmio New Holland de Fotojornalismo Agrícola em 2012. Foto: Henry Milléo

15. Como escolher a imagem certa para um concurso de fotografia?

Se eu soubesse a fórmula eu ganhava todos os concursos em que me inscrevo (risos). Mas uma boa dica é ler atentamente o edital, estudar as edições anteriores do mesmo concurso e prestar atenção na linha que vem sendo seguida. Alguns concursos têm uma margem maior de aproveitamento de um tema, outros são mais restritos. Outra dica é pedir a opinião de colegas de profissão; eu sempre faço isso e acho que ajuda a tirar algumas dúvidas.

16. Qual sua opinião sobre os concursos que apenas querem formar banco de imagens?

Não costumo participar de concurso assim, mas alguns têm um fim nobre, como o uso de imagens para educação ambiental ou inclusão social, então não me oponho a esses.

Lance do primeiro atletiba da final do campeonato paranaense de 2012. Foto: Henry Milléo

17. É possível listar alguns concursos de fotografia que são sérios?

Sim, vários. Tem o Worldpress, Leica Oskar Barnack, Leica Fotografe, New Holland, Nikon International Photo contest, World Photo, o prêmio da Fundação Conrado Wessel, vários salões de arte, entre outros.

Vista aérea da usina hidrelétrica de Mauá, no Rio Tibagi, entre Telêmaco Borba e Ortigueira / 2012. Foto: Henry Milléo

18. Qual o próximo concurso que você pretende participar e qual você sonha em ganhar?

Eu não costumava participar muito de concursos. O único que estava em meu calendário era o New Holland, que eu já havia sido selecionado para a exposição em outras edições. Mas quando comecei a pensar a fotografia dentro de ensaios específicos, consequentemente comecei a pensar onde “desovar” isso (risos). Aí surgiu a ideia de alguns concursos e corri atrás das inscrições. Esse ano mandei para o Nikon, WorldPress, World Photo, Leica Oskar Barnack e Conrado Wessel.

Agora, se fosse para ganhar eu queria era o Oskar Barnack, porque sonhar não paga imposto (risos).

Palhaço espera para entrar no picadeiro em circo pequeno na periferia de Curitiba / 2012. Foto: Henry Milléo

19. O que você aprendeu sobre a arte de compor que possa compartilhar com os leitores do site?

Vá além da fotografia. Vá ver as telas de Di Cavalcanti, vá ver os retratos da Anita Malfatti. Se deixe influenciar por outras artes, preste atenção na fotografia de filmes, no ambiente criado. É praticamente impossível você ir a uma plantação de girassóis e não ser influenciado pelo amarelo de Van Gogh, ou ir para uma cidade interiorana e não lembrar de Macondo. Esteja sempre atento e tenha paciência, espere, porque a foto que você quer nem sempre acontece do jeito que você quer e você tem que estar preparado para encontrar ela no meio da cena que se passa à sua frente.

20. O que te motiva para fazer seu trabalho se tornar compreendido pelos leitores da Gazeta do Povo?

A possibilidade de informar com uma única imagem.

Cabo eleitoral segura baner com foto de Beto Richa, em eleição para o governo do estado / 2010. Foto: Henry Milléo

Leia outras conversas em: 51 entrevistas com fotógrafos.

Comments (7)

  1. Silvia
    fevereiro 21st, 2013

    Preguntas perfeitas, respostas impecáveis!…

  2. katia brembatti
    fevereiro 21st, 2013

    Excelente profissional, ótimo colega. Milleo é fotojornalista de verdade: tem faro pela notícia e muita sensibilidade no olhar.

  3. Gladson
    fevereiro 22nd, 2013

    Boa entrevista, Joka, um grande abraço para o Henry, esse grande fotógrafo dos Campos Gerais!

  4. Daniel Castellano
    fevereiro 22nd, 2013

    Mais uma excelente entrevista para série. Milleo além de grande parceiro é um baita profissional.

  5. Marcelo Andrade
    fevereiro 27th, 2013

    Sensibilidade no texto e no olhar … “Esteja sempre atento e tenha paciência, espere, porque a foto que você quer nem sempre acontece do jeito que você quer” Perfeito!

  6. Rodrigo Félix Leal
    maio 21st, 2013

    Bela entrevista Joka! Sou fã do trabalho dele! Abço!

  7. A fotografia é uma arma… | Terra Sem Males
    junho 18th, 2015

    […] Clique aqui e leia entrevista com o repórter fotográfico Henry Milléo, no site do Joka Madruga. This entry was posted in Cultura on 18 de June de 2015 by joka. […]

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