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Entrevista com o repórter fotográfico Sérgio Sade

terça-feira, março 26th, 2013

Da série 51 entrevistas com fotógrafos.

A entrevista da décima terceira semana é com o renomado repórter fotográfico curitibano Sérgio Sade. Uma das ideias desta série de entrevistas é publicar, no final, um livro. Porém, com Sade daria para produzir uma obra somente com as histórias dele. Algumas imagens que ele cedeu gentilmente são reproduções de impressos, pois boa parte de seu acervo está na Editora Abril.  Todas as imagens abaixo são protegidas pela Lei 9.610 de 1998. Acompanhe:

Sérgio Sade

Quem é Sérgio Sade?

Um fotógrafo profissional.

Como foi ser o primeiro editor de fotografia da revista Veja? Quais as medidas que tomou ao iniciar os trabalhos?

Um desafio constante para mudar rotinas estabelecidas há anos. A primeira, e fundamental medida, foi a obrigatoriedade das pautas fotográficas serem emitidas pela editoria de fotografia. Depois, a seleção pela nova editoria em conjunto com os editores de texto, da imagem final a ser impressa e, finalmente, a devolução dos contatos e dos cromos para os fotógrafos verificarem os acertos e erros em seus trabalhos.

Pôster de Ayrton Senna na revista Placar. Foto: Sergio Sade

Hoje em dia temos os computadores com FTP’s e e-mails que facilitam na transmissão das imagens. Nas décadas de 60 e 70 como você controlava o fluxo de fotografias que vinham das diversas sucursais da revista? E como elas chegavam?

Os filmes na sua maioria chegavam por malotes diários, e quando havia urgência, devido a proximidade do fechamento, por via aérea nas mãos de passageiros. Sempre em envelopes especiais criados pela editoria de fotografia, com informações sobre os filmes, autoria, identificação dos personagens e a que editoria se destinavam. Apenas em último caso usávamos aparelhos de telefotos, devido a grande perda de qualidade.

E as pautas internacionais? Como funcionava o envio do material fotográfico produzido?

Da mesma maneira que as pautas nacionais, quando produzidas por nossos fotógrafos, ou malotes internacionais e telefotos, para fotos compradas das agências.

Cataratas do Iguaçu. Foto: Sérgio Sade

Como fazia para “descobrir” bons profissionais, como por exemplo o Pedro Martinelli?

A maioria aparecia na redação para se candidatar a fazer matérias como free-lancers, mostrando seus portfólios. Conforme o  material apresentado (sempre desconsiderava portfólios de imagens feitas no exterior e sem interesse jornalístico) dava uma pauta teste. E o resultado invariavelmente  indicava o bom profissional. O Pedro Martinelli, que eu já conhecia de nome pelas grandes reportagens feitas para O Globo, estava trabalhando como fotógrafo exclusivo do governador de São Paulo, o Paulo Egydio Martins, fazendo um material semelhante ao que David Hume Kennerly  havia feito para o Pres. John Ford, ou seja, um desperdício de talento.  Chamei-o e ele  aderiu imediatamente ao nosso projeto de editoria.

Como você orientava os repórteres fotográficos, de São Paulo e das sucursais, para que fossem criativos?

Valorizando a edição das fotos. Mostrando que imagens bem elaboradas, com o máximo de informação e ótima estética, sempre conseguiriam espaço maior na revista.

Estação da Luz em São Paulo. Foto: Sérgio Sade

Como era ser repórter fotográfico no período da ditadura militar? Teve Alguma foto censurada?

Não tive muitos problemas, pois fui para São Paulo apenas em 1974, quando começava a distensão da era Geisel. Recebi algumas agressões da polícia, mas mais por estar no meio do confronto deles com os estudantes e metalúrgicos durante as passeatas. Algumas fotos não foram editadas espontaneamente pela direção da revista, para evitar provocações desnecessárias naquele inicio de abertura politica.

Como a Veja funcionava antes de ter uma editoria só para fotografia? Como as fotos eram escolhidas e por quem?

As fotos preto e branco eram pré-selecionadas para serem ampliadas em tamanho 18x24cm, pelo chefe de fotografia, o Darcy Trigo (um dos melhores fotógrafos brasileiros, vindo da revista  Realidade) e encaminhadas, junto com a prova contato, para os editores da área, que decidiam a foto a ser publicada. Os cromos eram pré-selecionados pelo Trigo e encaminhados ao diretor da revista (Mino Carta) que fazia a edição final dos ensaios e da capa.

Fernanda. Foto: Sérgio Sade

O que te levou a sair da revista Veja?

O Helio Gaspari, recém nomeado diretor da revista, não concordava com o sistema de trabalho  implantado na editoria de fotografia e iniciou um processo de mudança que, na minha opinião, seria um retrocesso e deixaria os fotógrafos novamente desprotegidos e com seus trabalhos editados apenas pelos editores de texto. Não concordei com as modificações, que se chocavam frontalmente com meu modo de ver a editoria, e decidi me afastar e pedi demissão da revista. A pedido do Robert Civita, fiquei mais um ano como editor e fotógrafo, e no final pedi demissão em caráter irrevogável.

Conte-nos como conseguiu a foto do Maradona com a taça.

Na final copa do mundo de 1986, no México,  fui encarregado, pelo – Ugo Tognoni – diretor da Fifa, de distribuir as credenciais dos fotógrafos brasileiros. Eram apenas 5 coletes que davam direito a entrar no campo.  Dei para a revista Placar, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, RBS e um jornal de Pernambuco. O resto do pessoal recebeu credenciais para as arquibancadas e eu fiquei sem nenhuma entrada para o estádio. Quando estava indo para o centro de imprensa para assistir ao jogo, passou o Ugo Tognoni carregando uns coletes brancos, seguido por alguns fotógrafos. Eram os coletes que davam direito à tribuna de honra do estádio Azteca. Fui atrás deles. Na hora da distribuição um dos fotógrafos se atrasou e acabei recebendo o colete, apesar de não ter feito a entrevista  com os órgãos de segurança do México (obrigatória,  pois os presidentes dos países e outras autoridades estariam na tribuna de honra). Éramos apenas 10 fotógrafos: 6 de agências internacionais, um do México, um da Alemanha , um da Argentina e eu, de penetra. Dei sorte, pois não fiz nenhuma foto sequer do jogo, já que  o campo ficava muito distante, mas a entrega da taça para o Maradona aconteceu exatamente na minha frente, rendendo a exclusiva foto de capa para a revista Placar.

Capa da revista Placar sobre a Copa do Mundo de 1986. Foto: Sérgio Sade

O que você pensa sobre a fotografia digital e como vê a avalanche de imagens postadas diariamente na internet?

Acho ótimo. As facilidades técnicas que a fotografia digital oferece sempre foram um sonho considerado impossível pelos fotojornalistas da época pré-CCD e a massificação das imagens evidencia e valoriza os verdadeiros talentos.

Você fotografou a Elis Regina, Silvio Santos, ainda na Globo, e diversos outros artistas. Como era a convivência com eles?

Respeitosa, pelo prestígio que a revista Veja sempre teve entre os famosos e quase sempre rápida, por mútuas necessidades.

Fórmula 1. Foto: Sérgio Sade

Quais suas influências?

Reportagens e ensaios das revistas Life, Realidade, Newsweek, as séries dos livros “Life Library of Photography” e “Masters of Contemporary Photography” , Elliot Erwitt, David Burnet,  W.Eugene Smith, Leonid Streliaev, J.B. Scalco, pinturas de Rembrandt  e todos os filmes que assisti em minha vida.

Você se afastou do fotojornalismo, porquê?

Pela extinção da vaga de fotógrafo da Placar na sucursal paranaense da Editora Abril. A partir daí não tive nenhuma oferta de emprego nos jornais de Curitiba, e passei a me dedicar à publicidade, por falta de opção e para poder sobreviver como fotógrafo.

Igreja Jesus Salva em São Paulo. Foto: Sérgio Sade

Qual foi a pauta que te deixou satisfeito a ponto de querer repetir?

A cobertura da Eurocopa de 1988, na Alemanha.

Alguns afirmam que o fotojornalismo como profissão está com os dias contados devido ao avanço tecnológico e o fato do flagrante não mais nos pertencer. Acredita nisto? Porquê?

O flagrante pertence a quem estiver no local certo no momento certo, seja amador ou profissional. O que interessa é o documento. Enquanto houver assuntos de interesse público existirá o fotojornalista, seja qual for a mídia a ser usada para veicular a imagem. A maior parte das fotografias publicadas em mídias sérias e responsáveis, sejam impressas ou eletrônicas, são e serão sempre, produzidas por fotógrafos profissionais. É fácil para o amador fazer uma boa fotografia por acaso, sem compromisso, mas apenas um fotojornalista produz várias ótimas fotografias, tendo a obrigação profissional de fazê-las.

Colonos em Mato Grosso. Foto: Sérgio Sade

Você foi graduado na primeira turma de Comunicação Social da UFPR. A formação acadêmica é fundamental para ser um bom repórter fotográfico ou só instinto e técnica já é suficiente?

A formação acadêmica é importante para qualquer pessoa como elemento de formação e cultura, mas não é fundamental para um fotógrafo, ou pintor, ou músico, bastando o talento e o domínio de seu instrumento de trabalho.

O que você fotografa nos dias atuais?

Faço ensaios fotográficos para documentação e produção de livros e relatórios anuais de empresas.

Repressão a manifestantes de uma passeata em São Paulo no ano de 1979. Foto: Sérgio Sade

Algum projeto ou exposição em vista?

Estou tentando, há um ano, viabilizar um livro sobre o  Edifício Tijucas, em Curitiba.

Imagino que já te perguntaram isto milhares de vezes, mas não podia deixar passar. Como foi seu encontro com o vencedor do Pulitzer Nick Ut?

Uma grande lição de vida. Em 1976 o Nick Ut, sem eu saber quem ele era, trabalhou exaustivamente como meu ajudante, durante a viagem do Presidente General Ernesto Geisel ao Japão. Fez inúmeras idas e vindas entre os locais onde eu fotografava e o escritório da AP em Tokio, levando os filmes para serem revelados e transmitidos para o Brasil. Somente após os 3 dias da cobertura, quando fomos descansar e tomar uma cerveja, é que o chefe da AP me apresentou o Nick como o vencedor do Pulitzer, um ano antes. O ensinamento que carreguei pelo resto de minha carreira como fotógrafo, foi a modéstia  de um profissional como ele, ser solidário com um fotógrafo desconhecido, recém chegado do Brasil, reconhecendo a importância que o bom resultado do trabalho teria para mim, apesar de não significar nada para ele. O premiadíssimo Nick Ut demonstrou sua enorme compreensão da profissão de fotojornalista ao colaborar para o sucesso de minha cobertura sabendo que o que interessa  para o veículo é o resultado do último trabalho do fotógrafo e não os prêmios conquistados no passado.

O “ajudante” Nick Ut. Foto: Sérgio Sade

Capa da Veja com o presidente Geisel no Japão e que teve ajuda do Nick Ut. Foto: Sérgio Sade

 

Pianos Essenfelder. Foto: Sérgio Sade

Banho na Praça Zacarias. Foto: Sérgio Sade

Prêmio Nikon. Foto: Sérgio Sade

Rua são Francisco. Foto: Sérgio Sade

Bastidores de uma apresentação no Teatro Municipa de São Paulo. Foto: Sérgio Sade

Leia outras conversas em: 51 entrevistas com fotógrafos.

Comments (2)

  1. Daniel Castellano
    abril 24th, 2013

    Grande joka, excelente entrevista com o Sergio Sade, graças a voce podemos conhecer um pouco da historia de um dos maiores fotojornalistas paranaenses.

  2. Antonio Costa
    junho 1st, 2013

    Sergio Sade é referência para todos que gostam do fotojornalismo.Mas a foto dos colonos no Mato Grosso eu não tinha visto.Uma preciosidade de Sergio Sade.

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