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Entrevista com o repórter fotográfico Valterci Santos

terça-feira, Janeiro 29th, 2013

Da série 51 entrevistas com fotógrafos.

Nesta semana o entrevistado é o repórter fotográfico Valterci Santos. O Valteco fala de sua carreira, Olimpíadas, Copa do Mundo e do futuro da profissão. Ele foi um dos fotógrafos oficias do Comitê Olímpico Brasileiro. Confira:

Repórter fotográfico Valterci Santos. Foto:

Quem é Valterci Santos?

Muito difícil esta pergunta Joka, a gente nunca tira um tempo para se auto-avaliar. Eu nunca pensei nisto. Na adolescência fazia bicos como lavar carros, servente de pedreiro, chaveiro. Não sabia o que queria. Era de uma família muito pobre e minha vida começou a mudar depois que minha mãe começou a trabalhar com o Mussa José Assis, que era o diretor do jornal Correio de Notícias e ele me levou para ser office-boy no jornal e ali comecei a me interessar.

E como você começou na fotografia?

O Chuniti Kawamura, que hoje está no Palácio, era motorista e como sabia que todo mundo precisa de uma chance na vida me ajudou. Ele mesmo teve uma chance, deixou de ser motorista para ser fotografo. E teve um período que o Cícero Catani iria acabar com o departamento que eu trabalhava e ficaria desempregado. Já tinha uns 15 anos e pedi para não ser demitido, que me deixasse na fotografia, nem que fosse para lavar filme. E só tinha fera lá como o Joel Cerizza, Alberto Melo Viana, Macuco a Fernanda de Castro. E o Catani aceitou e me mandou lavar filme. Alguns fotógrafos aceitaram e outros não.

Foto: Valterci Santos

E o seu contato com o equipamento?

Um dia o Chuniti veio e me emprestou uma câmera, uma Pentax K1000 para começar a fotografar na redação e eu aceitei. Comecei a fazer aquelas “fotinhas” dos entrevistados e teve uma greve do próprio jornal, pois era muito quente e só tinha uns ventiladores que mal funcionavam. E nisto o Cícero pediu para eu ir fotografar uma escola queimada em Quatro Barras. Quando voltei ele não gostou muito do material, mas continuei a fotografar. E um dia fui num protesto em frente ao Palácio do Iguaçu por conta própria. Quando voltei mostrei para o editor da redação e o cara me humilhou dizendo que quem era eu para ir para a rua fotografar, pois não tinha registro ainda. Era para qualquer um desistir, mas eu continuei.

E como você virou repórter fotográfico?

Um dia o Cícero viu que eu tinha boa vontade e me colocou como repórter fotográfico e em um ano de Correio o Cesar Brustolini me contratou na Tribuna. Minha ascensão foi muito rápida.

Foto: Valterci Santos

Como foi tua experiência na Tribuna?

Totalmente diferente. No Correio trabalhava só com preto e branco. E na Tribuna tinha também o colorido e pior, cromo. E o cara que mais dominava o cromo no Paraná era o Antonio Costa, o Socozinho. Ele me deu muitas dicas, mas cromo você não pode errar, nem para mais e nem para menos. Tem que ser exato. Trabalhava com duas câmeras, uma PB e outra colorida. O que foi minha grande dificuldade, mas depois me adaptei. Você está  um ano num jornal e já sai e vai para um jornal como a Tribuna, do grupo que era o maior concorrente da Gazeta do Povo na época.

E a sua ida para Gazeta do Povo?

Esta parte foi mais fácil, como eu trabalhava para dois jornais (Tribuna e O Estado do Paraná) foi mais tranquilo. A cobrança na Gazeta era menor. O Joãozinho e do Edson Silva queriam me levar. Primeiro chamaram o Pedro Serápio e depois eu.

Foto: Valterci Santos

Na Gazeta do Povo você teve oportunidades de cobrir os maiores eventos esportivos: Copa do Mundo e Olímpiadas. Como foi isto?

Em 2000, nas Olímpiadas de Sidney fui com um equipamento muito ruim. Na época tinha o casamento da Canon com a Nikon, uma câmera com cartão grande. Fotografava e demorava para recarregar. Ali perdi muitos lances. E o Joãozinho me dizia para fazer o que desse. Não tem equipamento, paciência. Aquela Olimpíada senti que não fiz ela. O equipamento me deixou muito limitado.

E agora em Londres, o que te deu prazer?

Pelo COB tínhamos muito acesso em vários eventos. Gostei de cobrir o vôlei feminino, não sei se é por causa da minha filha praticar este esporte, mas o ouro delas foi um bom momento. E também do pentatlo moderno. Mas o que mais me marcou foi o pódio do Artur Zaneti. Ninguém apostava nele. E a estratégia que ele usou foi muito boa. Fez a seletiva e optou em ficar por ultimo para ver o que os outros iriam fazer. Foi o que mais gostei de fazer.

Foto: Valterci Santos

Teve stress na cobertura?

O pentatlo moderno foi meu pódio mais fácil. Eram poucos que cobriam por ser a ultima competição. Voltei para a sala de imprensa e fui para o ônibus. Era só eu e o motorista e ai a fixa caiu. Chorei sozinho. Liguei para um amigo que me dava muita força. Era tanta pressão do comitê que dava vontade de ir embora. Acordávamos de madrugada para lavar roupa suja, tínhamos divergências, mas era tudo para o bem da equipe, sempre querendo o melhor. O stress era muito alto.

Você era fotografo oficial do COB. Para quem não era do comitê como fazia o credenciamento?

Mandavam o credenciamento para o COB no Rio de Janeiro. Lá tem um pente fino onde um cara vai escolher e ver quem realmente é sério. Os grandes veículos estarão garantidos sempre.

Foto: Valterci Santos

Existe a rivalidade dos veículos com as agencias?

Existe. Uma quer ser maior que  outra. “Brigar” com a AP, Reuters, AFP, Getty é um absurdo. Os caras de agências neste nível estão além de qualquer veículo. É acirrado.

E cobrir a Copa do Mundo na África do Sul?

Foi como ser convocado também. Eu só cobria treinos. No dia da abertura, no jogo da África e não sei quem foi muito emocionante. E por ser de uma família humilde e pobre foi um sonho realizado. E quando entrei no estádio com minha mochilinha e a quatrocentinha (lente 400mm que geralmente se usa para cobrir esportes) e vi aquele negocio cheio de gente, gigantesco não deu para segurar.  Estava acostumado a fotografar futebol, mas ali era diferente. Na hora veio o nó na garganta. Liguei para minha mulher e não consegui falar com ela 30 segundos. Fotografar a Copa foi o ápice da minha carreira.

Foto: Valterci Santos

Como foi cobrir a final do Atlético-PR contra o São Caetano em 2001?

Eu e o Antonio Costa conseguimos entrar e o Rodolfo Buhrer não conseguiu. O cara da Arfoc-SP barrou o Rodolfo porque o jornal já tinha dois, então ele ficou nas arquibancadas e nos auxiliou e mandando as fotos para nós. Íamos na grade, dávamos o cartão para ele que transmitia. Foi uma parceria mesmo. A decisão em si foi legal, titulo inédito e eu estava muito confiante. O time que o Atletico tinha era difícil de bater. Quando saiu o gol do Alex um fotografo paulista me disse que a festa dos atleticanos começara (risos). Mas presenciei um fato triste neste dia.  Eu descia pelo mesmo elevador do estádio que estava o Galvão Bueno que comentou ao entrar: “Bela porcaria Atlético e São Caetano”. Ele queria era ver o Fluminense na final para ter audiência.

A profissão de repórter fotográfico está em risco?

Hoje em dia tem muito “fotografo”, mas ainda tem campo para explorarmos. O meu, o seu trabalho e de tantos outros é diferenciado. Muitos fazem só uma ou duas vezes porque não conseguem manter um padrão a longo prazo. E o aventureiro que compra uma câmera não aguenta. Você tem que nascer para a fotografia, tem que amar a profissão. Gosto do que faço e porque sobrevivo disto. Senão gostasse já teria ido fazer outra coisa na vida. Você sabe melhor que eu que cliente demora a pagar, mês de dezembro e janeiro são fracos. Tem que correr atrás.

Foto: Valterci Santos

Como você vê o instantâneo na fotografia hoje em dia?

Pela facilidade em ter celular com grandes megapixels, para você pegar “aquela foto” é difícil. Está todo mundo armado com câmeras e celulares. A febre do Instagram é uma loucura. Tem fotógrafos de Instagram que só faltam mandar currículo para as redações. (risos)

Você já teve algum problema com suas imagens por terem sido usadas indevidamente ou sem autorização?

Eu nunca tive conhecimento deste problema. Na Gazeta tinha um departamento que corria atrás disto. Mas foto minha mesmo nunca tive problemas.

Foto: Valterci Santos

O que você mais gosta de fotografar?

A minha filha que é a mais linda do mundo (risos). No jornal você fica direcionado a algumas coisas. Trabalhei 25 anos em jornal o que acaba por ficar automático. Hoje fazem um ano e meio que estou fora do jornal e voltei a ter prazer novamente. Coisa que não fazia era carregar a câmera comigo, para a rua ou um parque. Hoje tenho prazer em fotografar, seja o que for.

Existe algum projeto autoral encaminhado, uma exposição?

Estou reunindo bastante material para isto. Ainda este ano deve ter novidade em relação a isto.

Foto: Valterci Santos

Alguma chance em voltar para algum jornal?

Não. Jornal não dá mais pra mim. O dia a dia do jornal não me atrai mais. Não quero ficar no automático, quero poder criar. Eu trabalho para a revista Voi e para uma que fala sobre madeiras. Num dia você está bonito num shopping e no outro no meio de uma fazenda. Esta é a parte boa.

O que mais te marcou nestes 25 anos de carreira?

A final da Copa do Mundo de 2010 foi marcante. A foto do Casillas levantando a taça me marcou muito. Sempre lembro dela. Sempre olho, deixo como fundo de tela. Estar ali foi emocionante.

Foto: Valterci Santos

Qual seu conselho para quem quer iniciar como repórter fotográfico.

Hoje tem muitos por ai, mas você tem que ter diferencial. Tem que vestir a camisa. Abrir mão de muita coisa como sábado, domingo, feriado. Tem que gostar para poder encarar o que vier pela frente.

Comments (1)

  1. Valquir Aureliano
    Janeiro 29th, 2013

    Boa entrevista Valterci…Muitos detalhes da sua acensão profissional parece com a minha…Parabéns!!!

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