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Entrevista com o repórter fotográfico Franklin de Freitas

terça-feira, março 5th, 2013

Da série 51 entrevistas com fotógrafos.

Desta vez a conversa foi com o repórter fotográfico do Jornal do Estado, Franklin de Freitas. Ele fala sobre ser fotojornalista, o que prefere na fotografia e de sua carreira. Confira:

Franklin de Freitas por Joka Madruga

Quem é Franklin de Freitas?

Um jornalista louco pelo que faz. A regra? É não fazer o básico, seguir o padrão, ou o que os outros acham que é certo. Essa é minha regra. O Franklin é um cara de bem com a vida e de bem com ele mesmo.  Joka, pensa em uma pessoa que corre muito no dia-a-dia. Você acompanha meu trabalho e  sabe que fotografo pela manhã, a  tarde, a  noite e pela madrugada. Falta hora no meu dia, mas não me falta disposição para fotografar.

Como ingressou no Jornal do Estado?

Entrei no Jornal do Estado em 2000 como auxiliar administrativo. Logo fui para o local que revelou eu e muitos amigos na profissão: o laboratório Fotográfico. Fiquei encantado e resolvi de fato seguir o rumo da fotografia.

Reportagem sobre o horário de verão em 2008. Foto: Franklin de Freitas

Qual foi a primeira câmera que você usou?

Usei uma Zenit que no início era um bicho de sete cabeças. Olhando para um passado não muito distante vejo a  importância de  ter utilizado e  vivenciado o período do negativo.

Lembra qual foi a sua primeira capa? Como foi e qual foto?

Jamais vou esquecer Joka. Eu estudava jornalismo e ainda era auxiliar administrativo. Era madrugada já, eu tinha saído do jornal e estava indo para casa. De longe visualizei um clarão vermelho no céu e imaginei que era um incêndio e decidi ir naquela direção. No dia seguinte apresentei as  imagens para o Jonas Oliveira que era editor de  fotografia na época. Foi capa. 08 de  julho de 2005. Pensa na alegria do estudante.

Capa do JE com fotos de Franklin de Freitas.

Qual o maior desafio que você enfrentou durante uma pauta para o JE?

O maior desafio foi na final da  Copa do Brasil em 2012 entre Palmeiras 2 x 0 Coritiba em Barueri. Desde o início do jogo a  internet não estava funcionando. O amigo Jonatham Campos da Gazeta do Povo estava com o mesmo problema. Nem Oi, nem claro, nem Tim, nem vivo, nem ninguém. Aí veio o pensamento.. “Do que adiantou eu vir até aqui fazer a  cobertura e o jornal não ter fotos minhas?”. Era 20 minutos do segundo tempo… Saí do campo em busca da  internet perdida. Rodei pelo estádio inteiro e  nada de  internet. Foi quando encontrei uma pessoa disposta a  me ajudar.. Eu estava um pouco nervoso e  nem guardei o nome. Ele era responsável pela manutenção da  iluminação do estádio. Me levou em um local onde fica a rede elétrica. O único local que a  internet 3g funcionava… A explicação? Não sei até hoje. Mas funcionou. Liguei para o Ayrton que estava aguardando as fotos no FTP. “Ayrton mandei 15 fotos, chegaram?” Foi um alívio gigante quando ele respondeu: chegaram.

O crescimento da venda de carros na capital aumentou 40% em 6 meses. Foto: Franklin de Freitas

Já foi ferido em alguma pauta? Como se protege?

Já sim. Coritiba x Marília em 2007 – O Coritiba precisava da vitória para ser campeão brasileiro da série B. Não conseguiu vencer e a torcida ficou enfurecida. No final do jogo fui atingido na cabeça por um rádio. Sangrou bastante, mas não foi nada grave. Outra pauta foi a desocupação de um terreno no bairro Fazendinha em 2008. Levei pedradas na perna. Também sangrou, mas também nada grave. A minha proteção é DEUS. Se esconder atrás de uma parede ou outra coisa é perder boas imagens. Enfrento o conflito, para ter boas imagens.

Na imagem o repórter fotográfico que foi atingido na cabeça com um rádio de pilha, jogado pela torcida do Coritiba no jogo contra o Marília em 2007. Foto: Valquir Aureliano

Que conselho você daria para as pessoas que querem fazer fotojornalismo?

Antes de querer ser fotojornalista tem que gostar muito da fotografia e do jornalismo em geral. Em qualquer profissão a vontade é fundamental. Algumas palavras são determinantes: Eu quero. Eu vou. Eu consigo.

O que o leva a fazer imagens? Você vê isso como um trabalho ou como um chamado?

Ótima pergunta que se enquadra em duas respostas. O trabalho me leva a  fotografar para o veículo de  comunicação que sou contratado: o Jornal do Estado. O chamado porque o fotojornalista tem um papel importante na sociedade de denunciar, mostrar, revelar e sempre tentar mudar algo que está errado.

Bandidos invadiram o hospital Pequeno Príncipe. Na troca de tiros um deles morreu. Foto: Franklin de Freitas

Existe um senso de camaradagem e competição entre os fotógrafos de Curitiba?

Camaradagem da minha parte sempre Joka. Você me conhece e sabe que sempre que precisarem de mim estou à disposição. A competição existe mas é saudável. Como é bom ver e elogiar os excelentes trabalhos dos amigos. Mas nem todos são amigos.

Esportes ou policial? Porquê?

Esportes porque o Jornal do Estado não tem um caderno policial. Na parte policial fazemos a  cobertura das pautas que mais repercutem. Mas me abraço nas duas áreas, sem medo. Rs

Zoomada de uma partida de futebol. Foto: Franklin de Freitas

O que você quer dizer com sua fotografia?

Tento revelar a  realidade do momento que estou fotografando e  principalmente vivendo naquela hora do click. A fotografia é espetacular de  um modo que faz chorar de  alegria e  de  tristeza também.

Onde busca inspiração para fotografar o cotidiano de Curitiba?

A inspiração é na leitura, na música, nas pessoas e na cidade. Quando se gosta do que faz quase tudo é motivo de inspiração.

Catastrofe no litoral paranaense. Quatro pontes foram destruídas na BR 277. Foto: Franklin de Freitas

Existe algum projeto paralelo que você realiza?

Não estou realizando nenhum. Mas tenho alguns em mente. Só falta achar o tempo rs.

Qual sua opinião sobre a fotografia e a internet? O que pensa as milhões de imagens postadas todo dia?

Existem sempre os pontos positivos e negativos. Positivos porque você mostra sua imagem para milhões de pessoas em minutos. Isso é fantástico. Negativos porque algumas pessoas pensam que o que está na internet pode ser usado sem direito autoral. Isso é terrível. As milhões de imagens também são base de  estudo, alías nem eu, nem você e nem ninguém sabe ou vai saber tudo de fotografia. Nossa profissão é uma busca constante do aprendizado.

Quando o Jardim Botânico completou 23 anos. Foto: Franklin de Freitas

O que é divertido e o que é ruim em seu trabalho?

Divertido é sempre encontrar os amigos em locais mais absurdos possíveis nas realizações das pautas. Ruim são os horários. Nunca podemos marcar nada com antecedência pois sempre tem uma notícia que vem para nosso trabalho rs.

Vamos supor que tenhas uma bola de cristal. Como será o fotojornalismo daqui a 10 anos?

Desde o século XIX, a fotografia foi um dos centros de  atenção das pessoas. O poder que a  fotografia exerce na vida de todos, sejam especialistas, profissionais ou amadores sempre foi e será muito grande. A tecnologia das câmeras cresce assustadoramente a  cada hora. Com essa evolução acredito o fotojornalismo será mais instantâneo. Hoje o fotojornalista faz a pauta liga seu notebook e envia para a  redação ou agências. Daqui 10 anos ou antes o repórter fotográfico fará a  foto e segundos depois já estará no portal do veículo de comunicação. Mais instantaneidade e menos qualidade fotográfica. Menos qualidade porque não dará tempo de selecionar a imagem com mais tempo.

Forte chuva alagou ruas do centro de Curitiba. Foto: Franklin de Freitas

Qual é o fator mais importante para fazer uma boa foto?

A fotografia é luz. Analise a luz do ambiente, configure sua câmera. E? Boa foto!

Quais mestres do fotojornalismo são referencias para você?

Meus mestres? Fácil. Primeiro DEUS. DEUS é meu mestre em tudo que faço. Tenho a base teórica de Cartier Bresson, Capa, Daguerre entre outros… Mas fico por aqui mesmo. Os mestres Jonas Oliveira, Antonio Costa, o véio Orlando Kissner, você, Daniel Castellano, Valquir Aureliano, Daniel Caron, André Luís Rodrigues, Henry Milléo, Allan Costa Pinto, Valterci Santos, João Carlos Frigério e muitos outros me ensinaram diariamente. Vocês são meus mestres. Tenho que estudar onde moro, onde vivo, onde estou, o que vejo diariamente.

Torcida Os Fanáticos na Arena da Baixada. Foto: Franklin de Freitas

O que é o fotojornalismo na sua vida?

O fotojornalismo tem um papel importante na minha vida. Ajuda a me lapidar como pessoa, me tira muitos sorrisos, me faz chorar e principalmente me faz refletir que a vida é muito curta. E diante de um mundo cruel e pessoas cada vez mais egoístas temos que sorrir com as pessoas que nos querem bem…

O que você aprendeu sobre si mesmo sendo repórter fotográfico?

Uma conquista, seja qual for sem passar por cima de ninguém. É só ir atrás com determinação que você consegue. Aprendi também que no final de tudo, ninguém sabe nada. Somos eternos aprendizes. Não treine os olhos para fotografar boas imagens. Treine seu coração para expressar seus sentimentos, isso é a pureza da fotografia.

Acampamento do MST em frente ao prédio do INCRA em Curitiba. Foto: Franklin de Freitas

O DJ Internacional David Guetta fez show em Curitiba. Foto: Franklin de Freitas

Operação policial no bairro Parolim. Foto: Franklin de Freitas

Franklin baixa a câmera para ajudar um homem a socorrer o filho recém nascido durante um enchente em Curitiba. Foto: Jorge, o motorista do Jornal Estado

Leia outras conversas em: 51 entrevistas com fotógrafos.

Comments (4)

  1. Rodrigo Cardoso
    março 5th, 2013

    Parabéns pela entrevista Joca, esse cara é merecedor por sua atuação nos trazendo informações com qualidade e respeito ao próximo!!!

  2. Valquir Aureliano
    março 5th, 2013

    Mais uma bela entrevista JOKA>…

  3. Marcelo Stammer
    março 5th, 2013

    Muito legal!

  4. Ale Maya
    março 5th, 2013

    Parabéns, Joka pela iniciativa.
    Parabéns, Franklin meu amigo querido pelo talento e grande profissional.Sucesso,bjs!

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